O menino, os peixes e as estrelas - conto

Doce suburbano, jeito de quem vê a vida pelo lado certo. De se encantar com as lembranças da infância: subir em árvore para se esconder da irmã, correr atrás de galinha para rir à toa, jogar pedras no rio para espantar peixes. Fazer bola de meias e traves com par de chinelos para viver o espetáculo do futebol.

Pentear o cabelo molhado, bem repartido do lado direito, ir para escola limpinho e voltar imundo. De ter o direito de dormir sem tomar banho, de todas as noites agradecer a vida boa e farta rezando de mãos dadas com a mãe.

Antes de mergulhar nos sonhos do tempo que se foi, o homem de hoje dá fartas gargalhadas. É de um olhar inquieto, boas falas. Carrega nas costas uma leve tristeza por ter deixado seu velho garoto de castigo, sentado, calado, quieto, no canto oco do coração.

Ele escolheu fazer a alegria dos outros meninos ao contar, recortar e cantar as suas melancólicas histórias encantadas. O palhaço é um sonhador sem esperanças. Um moleque enrugado encantador, que passa os dias sentado no banco empoeirado da praça sem jardim em frente ao seu circo imaginário, esperando com toda a paciência do mundo, pela estreia do maior espetáculo da Terra.

Naquela última noite, o que o velho assistiu foi uma chuva de estrelas.


**A Coletânea de Contos 2021 do selo Off Flip está disponível para venda na loja do site




Posts recentes

Ver tudo

Deixe seu comentário

 
Assine aqui para receber os novos textos!

Obrigado pelo envio!