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"Tornar-se Negro": Reflexão crítica sobre identidade, por Gilceli Menezes**

"Tornar-se Negro: as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social” é mais que um livro, pode ser considerado uma luz que nos guia à emancipação política e psicológica das pessoas negras no Brasil de hoje, de ontem e de amanhã.

Nesse sentido, fazer uma análise crítica dessa obra literária é, na verdade, uma celebração a essa autora tão fundamental nos dias de hoje.


Neusa Santos Souza foi uma mulher negra, natural de Cachoeira, na Bahia, nasceu em 1948 e faleceu em 2008*. Formada em Medicina pela Universidade Federal da Bahia, num tempo em que a Medicina era ainda mais elitizada, Neuza se formou e se especializou em Psiquiatra e Psicanalista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.


A médica e também escritora tornou-se referência sobre os aspectos sociológicos e psicanalíticos da negritude, inaugurando o debate contemporâneo e analítico sobre o racismo no Brasil. Sendo assim, “Tornar-se Negro” tece sobre a experiência de ser negro numa sociedade branca, de ideologias, culturas e estéticas predominantemente sob os paradigmas da branquitude.


A construção do sujeito ou, como define Jung, fundador da Psicologia Analítica, o nosso processo de individuação, é uma permanente e dolorosa construção psíquica e tornar-se um individuo negro em meio às exigências e expectativas da sociedade branca é um desafio que enlouquece ou aniquila, pois, o modelo do ego, da subjetividade e da identidade social é o branco. E esse modelo branco se dá tão naturalmente, que, após o fim do processo de escravização da população negra, a sociedade pouco se importou em desmistificar o ideal do homem e da mulher negros construídos numa vertente de exploração. Isto é. como tolos, violentos, inconformados, raivosos e tantos outros adjetivos pejorativos.

De forma que toda essa construção da imagem do negro se incorpora ao inconsciente do negro, e parece recriar uma criatura incompatível com o modelo previsto do que representa o ser humano, que é o branco e o seu paradigma: a branquitude. Nesse sentido, ao longo do texto, a autora tece diálogos e experiências em que as perspectivas de vida dos sujeitos negros ficam confundidas e entram em conflito com essa identidade branca.


Algumas provas desse choque identitário são entregues ao leitor nas experiências coletadas pela autora e, infelizmente, ainda estão presentes na sociedade atual: na forma de intolerância religiosa, no ataque estético ao cabelo crespo e os penteados de trança; na marginalização do samba e do Rap. Isto posto, um ponto fundamental que a autora traz é a questão de como o “branqueamento” vai permear o processo de ascensão social do negro. E esse embranquecer e clarear não é só a questão da pele, porque o negro, no imaginário coletivo, é símbolo de miséria, de fome, e, então, clarear é também símbolo da ascensão econômica e social. Não seria por um acaso que vemos tantos jogadores de futebol, músicos e atores negro-brasileiros se casarem com mulheres brancas.

Trazendo outros elementos, ao longo do texto percebemos, por exemplo, que os índices de suicídio, de problemas psicológicos e psiquiátricos, muitas vezes é maior dentro da população negra. Com certeza esses fatos têm relação com todo esse processo de subjetivação racista. Fato é que esse livro, publicado originalmente em 1983, foi um dos primeiros textos, no cenário brasileiro, a conectar cismo e sofrimento psíquico. Após um longo período de esquecimento, em 2021 o livro ganhou nova edição, que chegou com toda força ancestral contida em seus registros históricos.

“Tornar-se Negro: as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social” é um livro muito forte, bate duro e derrama lágrimas. Traz depoimentos e reflexões que traduzem sofrimentos que encolhem a alma, mas são necessários para que cada geração de pessoas negras possa ter menos sofrimento em seu processo de individuação enquanto sujeito ascendido em uma sociedade, que não sabemos por quanto tempo permanecerá enaltecendo a elite como sinônimo de ser branco. Dessa dureza que nem mesmo a nossa autora conseguiu escapar.


*“Neusa não conseguiu chegar a 2009 para comemorar os 120 anos de proclamação da República. No sábado, 20 de dezembro, com cerca de 60 anos de idade, suicidou-se sem antes jamais ter dado sinais de depressão ou de que pudesse um dia recorrer ao gesto extremo de tirar a própria vida. Qual Ismália, lançou-se de alto de uma construção, um imponente edifício onde vivia na Rua General Glicério, Laranjeiras. Ela deixou apenas uma pequena mensagem pedindo desculpas aos poucos amigos do peito por sua decisão radical. Não era casada, não tinha filhos. Sua riqueza material – colecionava artes plásticas da melhor – deve ir para parentes colaterais na Bahia, distantes intelectualmente dela e de seu cotidiano de luta contra o racismo”

Fonte: https://www.geledes.org.br/racismo-por-que-se-matou-psicanalista-negra-que-fazia-sucesso-no-rio/?



**Mãe do Renato, Mulher do Beto, Avó do Caetano e da Helena, Gilceli Menezes, é uma mulher que, apaixonada por pessoas e pela escrita, resolveu aos 46 anos retomar os estudos e fazer senão uma, mas duas novas graduações: Jornalismo e Psicologia. A primeira graduação de Gil foi em 2001, em Terapia Ocupacional, pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. Nessa jornada de conhecimento e autoconhecimento, a autora tem aprofundado seus estudos nas relações étnicas e raciais, sofrimento psíquico e racismo.

O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida" - Machado de Assis, em Dom Casmurro



Gilceli Menezes é estudante de Jornalismo pelo IESB e de Psicologia pela Universidade de Brasília






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