A Política da Devastação, por Cristina Serra*

Atualizado: 29 de Out de 2020


*Especial para o site

Há uma guerra de extermínio em curso no Brasil contra florestas, águas, bichos e gente que defende nossos ecossistemas. Estão todos na mira de um exército de imenso poder destrutivo como nunca se havia visto no Brasil contemporâneo. O ataque biocida deste governo ao meio ambiente dispensa equipamentos de guerra, mísseis, bombas ou granadas. Basta cruzar os braços e liberar os exércitos de vândalos da natureza.

A arma mais comum é o palito de fósforo no mato esturricado pela seca. O combustível é o discurso de incentivo do presidente, do ministro e o silêncio cúmplice de seus generais embalsamados. Nunca se queimou tanta floresta, nunca morreu tanto bicho no Pantanal.

E quem leva a culpa são os indígenas e caboclos.

O fogo é apenas o sintoma mais visível da devastação que come a floresta por dentro. Uma nova corrida do ouro lança hordas de garimpeiros como cupins em terras indígenas e áreas protegidas. Suas máquinas e seus venenos também contaminam os rios e matam os peixes. A indiferença deixou o coronavírus penetrar nas aldeias para executar um projeto de extinção em massa.

Os ataques não acontecem apenas na floresta longínqua. As baterias se voltam ao litoral brasileiro, que um dia foi paraíso e deslumbramento para os invasores que aqui chegaram há mais de cinco séculos. Manguezais e restingas estão ameaçados pelos interesses da especulação imobiliária e da produção de camarão em cativeiro (altamente poluente). O Brasil tem cerca de 14 mil km2 de manguezais ao longo da costa, sendo o segundo país do mundo em extensão desse ecossistema (perde apenas para a Indonésia).

Os manguezais fazem a transição entre os ambientes marinho e terrestre e são berçários para muitas espécies de peixes, crustáceos e moluscos, que procuram suas águas para alimentação, reprodução e para protegerem-se contra predadores. Entre os frequentadores dos manguezais estão o peixe-boi, tartarugas, cavalos-marinhos, algumas espécies de tubarões e jacarés.

Poucos sabem, mas eles são também uma barreira natural contra a erosão causada pelas marés, correntezas e temporais; absorvem e armazenam carbono, contribuindo para amenizar o efeito-estufa. São, portanto, reguladores climáticos tão importantes quanto a floresta amazônica.

A vegetação de restinga fixa a areia, ajuda a evitar a erosão das praias e é um lugar sombreado, procurado pelas tartarugas marinhas para depositarem seus ovos e, assim, garantir a reprodução da espécie. Até o fim de 2020, o Brasil chegará à marca de 40 milhões de filhotes protegidos graças ao belo trabalho de conservação do Projeto Tamar e às restingas preservadas no litoral brasileiro, que todos os anos acolhem milhares de tartarugas das cinco espécies que frequentam as nossas praias, todas ameaçadas de extinção.

A Constituição de 1988 estabeleceu que o meio ambiente saudável e equilibrado é direito nosso e das futuras gerações. Sob este comando, sucessivos governos de diferentes matizes políticos e ideológicos, levaram décadas construindo nossa estrutura de proteção ambiental por entenderem, todos, que o Brasil teria um importante papel de potência ambiental num planeta abalado pelo impacto das mudanças climáticas. O atual governo, contudo, escolheu transformar o Brasil em pária ambiental. Temos as maiores reservas de água doce, a maior floresta tropical e a maior biodiversidade do mundo. Nossa dádiva não pode virar maldição. Temos que reagir às invasões bárbaras.



Cristina Serra, jornalista e escritora, com larga experiência no telejornalismo e imprensa escrita. É autora dos livros “Tragédia em Mariana”, de 2018 e “A Mata Atlântica e o Mico-Leão-Dourado”, de 2019. É um dos 32 nomes que participam da coletânea “Antifascistas - contos, crônicas e poemas de resistência", de 2020.


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